• Lucas Costa

Como o Urbanismo Colaborativo pode melhorar nossas cidades?

Atualmente a maioria da população mundial vive em cidades e muitas são as dificuldades que esse modo de viver nos apresenta. A realidade dos aglomerados urbanos na América Latina se mostra bastante difícil, mas iniciativas que trabalham a intervenção urbana a partir da colaboração têm se mostrado um caminho positivo para a solução de alguns problemas locais. O urbanismo colaborativo abrange um conceito amplo de participação de diferentes personagens da sociedade no planejamento e implementação de ações e iniciativas no espaço urbano para melhoria da qualidade de vida de todos os cidadãos. Tais ações não buscam um modelo de intervenção para uma cidade perfeita, mas entendem a transformação urbana como um processo de participação efetiva da população tendo como objetivo a dignidade e inclusão de todos na melhoria do espaço urbano.


A experiência de Medellin (Colômbia) nasce, em um primeiro momento, de uma grande necessidade dos cidadãos de modificar a realidade presente e instaurada em uma cidade dominada pelo cartel e tráfico de entorpecentes e suas consequências sociais. As muitas famílias atingidas pelo flagelo do tráfico uniram-se, através de políticas públicas e governantes, em um processo de cooperação e, principalmente, vontade de criar e coparticipar das estratégias e instrumentos para um desenvolvimento sustentável. Em sequência a essa necessidade urgente de mudança, as Empresas Públicas de Medellin (EPM) e a Empresa de Desenvolvimento Urbano (EDU) são criadas e, apoiadas por sucessivos governantes, incentivadas a elaborar um modelo de desenvolvimento territorial embasado no conhecimento de cidades compactas em consonância com as políticas de cidades sustentáveis. Era evidente e urgente a necessidade de se pensar em alternativas que transformassem a violência estabelecida através de soluções que resultaram no pensamento do urbanismo colaborativo.


Diversas foram as propostas que apoiaram esse crescente processo de cooperação urbana e vê-se que o principal objetivo das intervenções era conectar pessoas através de uma mobilidade efetiva e inclusiva. O sistema de transporte e mobilidade urbana pensado tem como premissa uma integração justa e igualitária, apoiado pelo sistema de classes existentes na cidade, verificando as pessoas de maior necessidade como tendo maior apoio governamental. Todos, indiferentemente do local de moradia, poderiam acessar ao centro da cidade dispondo de apenas 15 min, conseguindo isso através do sistema integrado bondinho – trem de superfície – ônibus – metro. Todo esse respeito pelo cidadão é retroalimentado pelo novo comportamento social nesses transportes de massa. Essas iniciativas dão legitimidade a população e consequentemente resultam em prevenção da violência. Nessa mesma perspectiva, no interior da Comuna 13, grande favela urbana de Medellin, incentiva-se a criação de projetos de valorização da cultura local e dos saberes da comunidade criando uma cultura de pertencimento, exemplos estes percebidos na imagem 1.

O grande movimento de articulação urbana se concentra na criação de aproximadamente 30 equipamentos urbanos, ligados a cultura, lazer e atenção comunitária, localizados nas áreas mais frágeis da sociedade que são oriundos dos desejos e aspirações de cada comunidade tendo como orientador e facilitar do processo de criação o corpo técnico das empresas públicas de Medellin. Junto a essas políticas seria necessário se pensar, ainda, em um processo contínuo da experiência real de participação comunitária, com a criação de projetos que possibilitassem a qualificação de mão de obra efetiva, centrando essas ações em grupos socialmente frágeis com regramentos para a participação de mulheres e da população local. Além dessa preocupação, a criação de programas como o EDUcamos, oferecem a conscientização ampla e irrestrita, de pessoas externas e visitantes com a participação integrada de pessoas das comunidades locais. É importante salientar que todos esses processos estão centrados no protagonismo das comunidades onde aconteceram e nunca pensados em decisões arbitrárias governamentais ou em sentido descendente.


No Brasil, já existem muitos grupos e comunidades trabalhando a partir desta metodologia do Urbanismo Colaborativo, que insere a população como protagonista das transformações necessárias na sua cidade ou bairro. Algumas dessas iniciativas se vinculam ao chamado Urbanismo Tático que propõe intervenções urbanas graduais, voluntárias e com baixo custo. O objetivo é trabalhar na escala local, com baixo risco, resultados significativos e, principalmente, a formação de um capital social concentrado na autonomia dos moradores. Na imagem 2 é possível identificar alguns desses exemplos que participaram da 4ª mostra de projetos de urbanismos colaborativo no Brasil.

A cidade de Santa Maria também é território de grupos e organizações que objetivam, a partir de uma inserção em alguma comunidade colaborar para melhorar o espaço urbano e as condições de vida naquele local. O grupo do Protagonistas do Futuro, coordenado pela ADESM- SM, é um bom exemplo de sociedade civil organizada tentando colaborar com a melhoria da cidade e com a capacitação de pessoas comuns inseridas nos seus locais de moradia. Outras possibilidades também se estabelecem na relação universidade e sociedade, como é o caso das capacitações e projetos de extensão. A imagem 3 mostra uma pequena intervenção na praça Hermenegildo Gabbi, no bairro Nsa. Sra. Do Rosário, em que o grupo [com]VIDA, projeto de extensão do curso de Arquitetura e Urbanismo da UFN, atuou conjuntamente com os moradores locais.

Muitos sãos os atores sociais e os agentes urbanos que podem se transformar em protagonistas das suas comunidades. Em uma perspectiva mundial onde a qualidade da vida urbana está voltada somente para a massa da cultura global endinheirada, que vive em cidades dividas, fragmentadas e em constante conflito tornam o conceito de cidade, de encontro e de troca, cada vez mais impossível e irreal. As iniciativas apresentadas, onde a sociedade civil articulada em maior ou menor escala com o poder público, buscam novos modelos de produção do urbano onde é possível perceber a efetivação do real direito à cidade onde se estabelece um maior controle democrático sobre os excedentes econômicos aplicados no processo de urbanização.


Não se pode imaginar, que o desenvolvimento urbano centrado em desenvolvimento econômico, onde estes direitos são vendidos a interesses privados que transformam as cidades em negócios possam, de alguma forma, resolver os impasses urbanos contraditórios e, ao que parece, conseguem somente intensificar essa relação desigual. Temos de pensar uma cidade ou um desenvolvimento urbano como forma de mudar o mundo, mudar a forma como vivemos e, nesse sentido reinventar a cidade mais de acordo com os nossos desejos de solidariedade, igualdade, pois como preconiza David Harvey, a revolução de nossa época tem de ser urbana [e colaborativa] ou não será nada.


Você pode saber mais sobre o movimento Protagonistas do Futuro acessando adesm.org.br/protagonistasdofuturo. Todas as pessoas podem colaborar com o nosso movimento, seja através do voluntariado, da doação de materiais ou em dinheiro. Você pode se informar sobre nossos projetos através do WhatsApp (55) 9 8122-0098.


Esse artigo foi escrito por nossos parceiros no projeto Protagonistas do Futuro, os professores de Arquitetura e Urbanismo da UFN, Juliana Guma e Adriano Falcão.

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